Mostra Arquitetura para Curitiba aprofunda relação entre arquitetura e política

“Cidade presente, cidade ausente” foi o tema escolhido para a edição 2019


A edição 2019 da Mostra Arquitetura para Curitiba teve como objetivo aprofundar a relação entre arquitetura e política, trazendo o tema “Cidade Presente, Cidade Ausente”. A proposta da Tellus Arquitetura Sustentável foi de pensar em soluções para uma sociedade que cada vez mais entende seu papel como agente de transformação do mundo.


Por isso, resgatamos a conexão daqueles que vivem nas cidades com a natureza, ressignificando paisagens em áreas de convívio não apenas dos seres humanos, mas também de animais e espécies vegetais. Segundo a arquiteta e urbanista Cecilia Polacow Herzog, em sua obra “Cidades para Todos - (re)aprendendo a conviver com a Natureza”, este é o objetivo dos sistemas biofílicos: reintroduzir ou incrementar a biodiversidade urbana, para que seja possível ter seus serviços ecossistêmicos nas cidades onde as pessoas vivem, circulam, trabalham e se divertem.


No projeto apresentado na Mostra, a Tellus propôs soluções biofílicas para resgatar e revitalizar a área do Centro Cívico de Curitiba (PR), no trecho entre o Passeio Público e o Bosque do Papa. Soluções como wetlands, jardins de chuva, telhados e paredes verdes, e arborização urbana serão inseridos em um contexto urbano para recuperar e aproximar novamente o rio à população de Curitiba, oferecendo espaços de convivência e opções mais saudáveis de mobilidade, além de resgatar a biodiversidade original. A proposta inclui um parque que se estende ao longo da avenida Cândido de Abreu, representado pelo Corredor Verde, enquanto o rio Belém é representado pelo Corredor Azul.


Conheça mais detalhes sobre o projeto abaixo.



Corredor Azul – o resgate do Rio Belém


O rio Belém faz parte da história de Curitiba. Sua bacia hidrográfica se estende do centro da cidade até mais 36 bairros. Até o ano de 1877, o rio era limpo e poderia servir como fonte de abastecimento à população. A contaminação do rio Belém se deu, de modo geral, desde as primeiras ocupações em seu entorno, que não foram feitas com o devido planejamento. No ano de 1888 aconteceu a primeira epidemia de tifo (doença transmitida por parasitas comuns do corpo humano), decorrente do esgoto do local. De lá pra cá, foram diversas as tentativas de torná-lo limpo novamente.


Foi pensando no desejo de ver o rio Belém limpo ao longo de sua extensão que a proposta da Tellus Arquitetura Sustentável focou no tratamento da água por meio da instalação de uma wetland. A reconexão da cidade com este “corredor azul” resgataria um ecossistema até então perdido, criando espaços de contemplação e permanência realmente eficientes. Ao longo do caminho do rio, as pessoas poderiam se reconectar à paisagem e ao meio urbano.


Rio Belém na Rua Euclides Bandeira

No projeto, o rio continua desempenhando sua função de drenagem urbana, porém agora incorpora-se ao paisagismo em todas as suas funcionalidades, agregando propriedades de tratamento de efluentes, retenção de água de chuva, biofiltro, resgate da biodiversidade e espaços de permanência para a comunidade. A wetland, situada na Praça Nossa Senhora de Salete, é o grande encontro do Corredor Verde com o Corredor Azul.


A água do rio Belém é tratada ao passar de uma bacia para outra, cujas formas curvas e orgânicas chamam a atenção do espectador. Cada bacia tem sua função específica na descontaminação e purificação da água, retirando a matéria orgânica, metais pesados e o nitrogênio. Ao final, há uma pequena queda d´água que realiza a oxigenação da água e os chafarizes, que lançam a água já tratada do rio Belém aos céus.


Espaços de lazer, permanência e contemplação, com bancos, árvores e vegetação nativa, permeiam as grandes bacias da wetland a fim de retomar a conexão do curitibano com o rio Belém e a própria natureza. Bares e restaurantes ecológicos garantem o conforto ambiental e estimulam a sociabilidade entre as pessoas, trazendo também maior segurança.


Wetland na Praça Nossa Senhora de Salete


Corredor verde – um parque em plena avenida


A avenida Cândido de Abreu nasceu com a implementação do Plano Agache, o plano diretor desenvolvido pela equipe do arquiteto Alfredo Agache e encomendado pela prefeitura de Curitiba no ano de 1941. A essência da avenida, de emoldurar o Palácio Iguaçu, é retomada e reafirmada no projeto da Tellus Arquitetura com as concepções de Corredor Verde e Azul.


Em vez de ser somente um lugar de passagem para os curitibanos, a avenida ganha vitalidade com a imponência do parque linear e a coexistência de diferentes modais. Assim, ela passa a se tornar uma via calma que permite a contemplação da paisagem urbana, deixando de ser apenas um trajeto para se tornar uma experiência!


O parque linear, além de tornar a vista mais agradável e natural, tem como propósito marcar a apropriação do espaço por parte da população. Formado apenas por árvores e vegetação nativa, além de resgatar a biodiversidade local ele dispõe de espaços multifuncionais, como quadras poliesportivas, playgrounds, arquibancadas e quiosques. Dessa forma, atende públicos de diferentes interesses e faixas etárias, enfatizando o conforto e a integração social e ambiental.


Jardins de chuva e pisos drenantes são exemplos de infraestrutura verde empregadas no parque. Ambos coletam a água da chuva e são responsáveis pela sua infiltração no solo, alimentando o lençol freático. O parque linear irá culminar nas bacias da wetland na praça Nossa Senhora de Salete, onde se encontram os Corredores Verde e Azul.


Parque vertical na Av. Cândido de Abreu


Praça multifuncional – mais presença para a cidade


A praça multifuncional, entre as ruas Mateus Leme e Euclides Bandeira, foi proposta com o objetivo de transformar a Cidade Ausente em uma Cidade Presente. O local, antes vazio e subutilizado, com uma grande rampa verde, transforma-se em um portal para o parque linear.


Embaixo da grande rampa estão os bares, pontos de encontro para as pessoas no período da noite. Acima deles, um mirante para contemplar diferentes vistas do parque. Como subsídio dos bares e da comunidade local, hortas urbanas incentivam o convívio no período diurno. O fato das hortas necessitarem de cuidado comunitário também faz parte de uma estratégia de reintegração com a própria natureza, além de incentivar o convívio entre os moradores da região.


Outra solução para os espaços vazios são os edifícios garagens, eficientes e multifuncionais, prevendo uma infraestrutura verde como resposta à ineficiência de prédios convencionais. A proposta consiste em estacionamentos verticais com soluções sustentáveis: telhados e paredes verdes que auxiliam no resfriamento do edifício, umidificam o ar e destacam a edificação na paisagem urbana; e painéis fotovoltaicos que geram energia limpa. Os estacionamentos possibilitam a troca de modais, atendendo tanto ao cidadão que utiliza carro, quanto ao interessado por meios mais alternativos como a bicicleta.


Praça entre a Rua Mateus Leme e Rua Euclides Bandeira


De acordo com a engenheira Aline Araújo, a solução apresentada pela Tellus Arquitetura Sustentável tem seu recorte bem definido ao longo do Centro Cívico, mas é uma proposta com potencial suficiente para ser replicada e adaptada a outras localidades da cidade. “Curitiba é conhecida como ‘cidade verde’, exemplo em iniciativas sustentáveis e limpeza urbana, mas é necessário que se faça jus a esse status. É por meio de uma iniciativa biofílica que a reconexão com o espaço construído e a natureza se torna possível, além de ser uma experiência única a cada dia. Ao tornar a vivência de um local boa novamente, todo o entorno pode sentir os efeitos positivos alcançados”, conta.



Exposição – Mostra Arquitetura para Curitiba


A Mostra Arquitetura para Curitiba deste ano teve início em setembro de 2019, no Mezanino do Palácio Iguaçu. Agora, ela se encontra exposta no segundo andar do Memorial de Curitiba, e fica de 15 de outubro até 30 de novembro.


A Tellus está expondo na Mostra por meio de um painel que além de apresentar suas soluções propostas para a região, também provoca uma reflexão sobre a importância e a necessidade de construirmos cidades mais verdes, sustentáveis e saudáveis. Locais onde o paisagismo aliado a soluções urbanísticas promove espaços públicos acessíveis e seguros para os pedestres e ciclistas.


Contudo, este projeto destaca o cidadão como o verdadeiro agente da mudança. Sem vivência, permanência, entendimento e cuidado, não há cidade biofílica. Viver uma cidade vai além de experimentar as possibilidades de moradia, educação, trabalho, transporte, saúde e entretenimento. Uma cidade pode ser interdependente, sistêmica, um verdadeiro organismo vivo e saudável.

Equipe idealizadora do projeto: alunos de graduação e profissionais Tellus Arquitetura – créditos Iram Oteiro

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